Putin se aproxima de Roberto Carlos e isto não é bom

Por Gerson Brasil*
23/04/2022 às 07h30
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Foto: Acervo pessoal
Foto: Acervo pessoal


O noticiário está voltado para as eleições e para a Ucrânia, com Putin borbadeando e matando a população de Kiev e arredores e o Kremlin dizendo que é propaganda do Ocidente, como se as valas que encobrem os cadáveres fossem ficção. As pesquisas dão Lula como eleito, enquanto Bolsonaro avança falando estupidez e despejando dinheiro na economia, seguindo a receita de todos os candidatos à reeleição.   

Mas a grande guerra não produz carnificina. Talvez por isso não receba a atenção devida. Trata-se da retirada da Rússia da economia internacional, na parte que conta, a Europa e os Estados Unidos. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que a falência do Estado russo é apenas uma "questão de tempo" fruto das pesadas sanções impostas a Putin por  ter invadido a Ucrânia.

Numa decisão inédita a Rússia foi excluída do Swift, o sistema global de pagamentos, onde as mercadorias e os títulos dos governos são saldados. O camarada Putin fez de conta que se tratava de roda gigante, uma diversão. A maior está em Londres. Ignorou o fato e tentou pagar em Rublo, uma moeda inexistente, assim como Real, porque não é conversível.

A Rússia pagou dois títulos com Rublos e o mercado não aceitou, porque os contratos de títulos só podem ser executados em dólar. Se o Brasil, por exemplo, quiser fazer um Pix em real não será aceito, mesmo argumentando que o dinheiro vai cair na conta na mesma hora. E também há o risco do Pix se perder no caminho e dizer au revoir. 'Desculpe, não li o 'Poema de Sete Faces', de Drummond'.
Fora do sistema financeiro internacional a Rússia terá dificuldade até de comprar um picolé Capelinha, e as exportações de bens para o país já caíram 70%". Centenas de grandes empresas e milhares de especialistas deixaram foram embora. O PIB na Rússia, de acordo com as previsões, vai encolher 11%". É muito, quase um desastre, para um país que tem mais de 140 milhões de pessoas.

Afora o dólar, o Euro e a Libra, as outras moedas só existem no limite das fronteiras, o que torna as economias frágeis, vivendo de sobressaltos, como o Brasil, onde 100 reais, pode valer 72, 67, 59, a depender de quanto tenha sido desvalorizado e a inflação cuspa fogo. A Venezuela retirou seis zeros da moeda em 2021 para conter hiperinflação, com a cotação do dólar alcançando 4,18 milhões de bolívares.

As sanções impostas à Rússia pelos países do Ocidente cortaram de forma significativa o acesso de Moscou aos mercados financeiros internacionais. Quem tem títulos russos está com mico na mão, porque sabe que vem aí um calote. E organizações como FMI não vão poder socorrer Moscou, como já fizeram com o Brasil, Argentina e outros países.

Com as restrições do espaço aéreo, de petróleo, confisco dos iates dos bilionários, das contas, o Rublo tende a ser substituído pelo escambo, o que seria um desastre para a economia russa. Viver sem moeda é impossível, o dinheiro, a moeda, é padrão de valor, que sustenta os contratos e os salários, sem isso, as mercadorias deixam de ter preço, ele se torna aleatório.

O governo de Putin tentou criar um sistema de pagamento paralelo ao Swift, convidando os países integrantes do Bric, do qual a Rússia faz parte, mas o Brasil, inacreditavelmente, logo disse que não entraria nessa. A índia ficou calada, como os demais, África do Sul e a poderosa China. A idéia era utilizar o sistema de pagamento do Pix, para ampliar os benefícios e as dores de cabeça, numa trama internacional. Com a guerra se arrastando, e a cada hora novas sanções sendo impostas à Rússia, logo Putin estará isolado dentro do próprio país, com rublos na mão sem o menor poder de compra. E isto não é bom. Ele pode pegar carona em Roberto Carlos e dizer: "Não vou mudar/ Esse caso não tem solução/ Sou fera ferida/ No corpo, na alma e no coração".

*Gerson Brasil - secretário de Redação da Tribuna da Bahia
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