ARTIGO: O silêncio ensurdecedor*

Por Adilson Fonseca*
12/02/2020 às 10h00
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Foto: Divulgação
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O poeta e filósofo norte americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882) disse que as ações falam mais que mil palavras, ao se referir ao fato, na frase: "Suas atitudes falam tão alto que não consigo ouvir o que você fala". Na sua assertiva sobre o comportamento humano, ele diz que somos aquilo que pensamos e exteriorizamos isso em atitudes. E afirma" "O homem é aquilo que ele costuma pensar durante o dia todo".

Daí que não dá para entender o silêncio das mulheres, notadamente aquelas que se julgam feministas ou, no mínimo, defensoras dos direitos das próprias mulheres, ante a vilania praticada pelo ator José de Abreu contra sua colega de televisão e agora integrante das equipe de governo do presidente Jair Bolsonaro, Regina Duarte.

Só se tem uma explicação desse silêncio aquiescente das mulheres, quando esse silêncio assume ares trovejante na voz de uma delas, a filósofa carioca, Márcia Tiburi, militante do Partido dos Trabalhadores (antes PSOL) não por apenas sair em defesa de Zé de Abreu, mas corroborar com a anuência silenciosa das demais mulheres, tudo que o ator, chamado de "cuspidor geral da União", por ter se tornado notório ao cuspir em opositores, incluindo mulheres, em 2016, vem dizendo recentemente.

Tiburi justifica a frase torpe de Zé de Abreu de que a mulher, se for considerada fascista, deixa de ser mulher, passando a ser qualquer coisa, nem mesmo se o seu órgão feminino, a vagina, atestar biologicamente a sua identificação de gênero, como diz Abreu no seu novo conceito que "fascista não tem sexo". E que "vagina não transforma ninguém em ser humano".

A professora e filósofa Márcia Tiburi, que se autointitula feminista, diz: "Feminismo não pode ser tratado como uma abstração para defender mulheres fascistas e machistas só porque são mulheres. E é claro que não deveríamos atacar ninguém. Mas quando o ataque virou razão de Estado tudo é diferente".

Pelo que se sabe, questões de Estado envolvem Segurança Nacional ou ameaça em grande escala ao governo, à sociedade, à governabilidade e ao Estado Pleno de Direitos. E não se vê como a agora secretária nacional de Cultura, a atriz Regina Duarte, se enquadraria em quaisquer uma dessas situações. E muito menos seria motivo de ataques em defesa do Estado.

Na convocação feita em redes sociais, José de Abreu pede apoio das mulheres para defender sua tese antivaginal. Ao que parece, até agora conseguiu publicamente de duas: a Márcia Tiburi, e a colunista da Folha de São Paulo, Mônica Bergamo, que corroborou em manchete na sua coluna diária o delírio vaginal do ator.

Mas com o silêncio ensurdecedor das demais mulheres, desde as feministas de plantão até as que formaram o grupo "Mexeu com uma mexeu com todas", Zé de Abreu parece ter conseguido muito mais apoios. Para as mulheres que o apoiam ou endossam, no silêncio, o apoio, vale a máxima: Não se critica ataques contra as mulheres, mas sim se verifica o autor e a sua procedência. E Zé de Abreu é o autor, mas tem procedência ideológica que se identifica com a das próprias feministas. Talvez por isso o silêncio.

O ator José de Abreu, depois da verborragia vaginal contra sua colega, Regina Duarte, anuncia que vai se mudar para a Nova Zelândia, um dos países proporcionalmente mais ricos do mundo e geograficamente mais isolado. Uma moleza fazer oposição à distância!

*Adilson Fonseca é Jornalista e escreve neste espaço sempre às quartas-feiras.