A bola rola, o covid aplaude e o Réveillon insiste ser pedra

Por Gerson Brasil

Por Gerson Brasil*
08/07/2021 às 08h00
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Foto: Divulgação
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Para Rayllanna Lima

A bola se desloca redonda, os jogadores a sabem tratar, é a arte do futebol exibida nas partidas da Eurocopa. Aqui, os jogadores se esforçam para dar passe errado, inventam jogadas escalafobéticas, passam um bom tempo trocando passes laterais, e quando conseguem fazer gols o mérito recai mais nas falhas das defesas e pouco na habilidade do atacante.

Mas os casos de Covid não habitam a Copa do Brasil, o Campeonato Brasileiro; alguns foram relatados na Copa América. Nas três competições não há público. Nas cidades sedes da Eurocopa os estádios exibem 50 mil pessoas e fala-se em 60 mil na final em Wimbledon, com os casos de covid voltando a disparar. A Organização Mundial da Saúde discretamente manifestou "preocupação", num élan com a indulgência agostiniana, que enxerga os vícios "como uma beleza difusa e sombria". Mas quem há de contrariar os europeus?

Robb Butler, diretor-executivo do escritório regional da OMS para a Europa, relatou à agência de notícias AFP que em algumas cidades, onde os jogos estão sendo realizados, os casos de covid têm aumentado, diante das flexibilizações das restrições no combate à pandemia.

O vizinho Uruguai, país de 3,5 milhões de habitantes, com 1,5 milhão de pessoas morando em Montevidéu, era um exemplo de combate ao coronavírus na América do Sul; com vacinação em massa, fechamento de empresas e escolas, e restrição de viagens, seguindo o protocolo recomendado em março de 2020, pelo Honorary Scientific Advisory Group, entidade internacional que fornece apoio no combate ao covid.

De repente, as restrições foram embora rapidamente e o país hoje exibe números alarmantes de casos e mortes por covid. Segundo a revista Nature relata, "durante todo o ano passado, o país de 3,5 milhões de habitantes registrou apenas 19.100 casos de covid e 180 mortes pela doença. Mas esse ano já escalou mais de 341.000 infecções e 5.100 mortes".

Além das restrições que foram postas abaixo, as variantes do covid também têm ajudado e muito no recrudescimento da pandemia. O aparecimento da variante Gama, originária de Manaus, é apontado como um combustível poderoso.

A Nature mostra que uma pesquisa descobriu que, embora a maioria dos uruguaios pense que covid é uma doença grave, apenas um em cada três pensava que seria infectado nos próximos seis meses.

A vacinação voltou a ser intensificada e mais de 43% da população já está vacinada, sendo que desse percentual 63% já receberam a segunda dose. A esperança dos médicos e cientistas do Uruguai é que a pandemia volte a ser controlada. Mas ficou uma lição. Principalmente para os países como o Brasil que estão vivenciando a variante Delta, cujos sintomas são semelhantes a uma forte gripe, num momento em que vamos entrar no inverno, quando há grande incidência de Dengue, Zika e outros surtos virais, a lotar as emergências dos hospitais, principalmente de crianças. Enquanto a bola desliza nos gramados da Eurocopa,  o covid participa da arquibancada. As Olímpíadas de Tóquio se darão de 23 de julho, seguindo até o dia 8 de agosto de 2021. O Révellion está sendo ensaiado, quem sabe uma glosa, um improviso, uma espécie de oração que insiste ser pedra, mas para ser tomada na paixão, ou na angústia, assim relatada Giorgio Manganelli, em Hilarotragoedia: "que este inveterado pasto de carne espamódica e molhos de malefício e caldos de delírio e maioneses dolorosíssimas, esta nutrição oculta, cotidiana, ininterrupta [...] advenha do desfazer-se em câmara ardente, deserta da vileza dos anjos". No Youtube Guantanamera com 75 músicos cubanos en el mundo. Belíssima gravação.

*Gerson Brasil é secretário de Redação da Tribuna da Bahia.

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