ARTIGO: A turma do ódio do bem

Por Adilson Fonseca*
07/10/2020 às 08h00
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Foto: Divulgação
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A pandemia do coronavírus (Covid-19) parece ter causado às pessoas muito mais danos psicológicos existenciais do que os de natureza física. Reclusos por causa do isolamento social, muita gente fez vir à tona, através de ações e palavras, sentimentos que até então mantinham guardados no imo do ser, ou pelo menos acobertados por força das conveniências sociais, e que agora, instigados pela ausência do convívio social com os grupos afins, explodem em manifestações raivosas, eivadas de ódio e completo desequilíbrio, ético, moral e existencial.

Nas palavras do escritor, filósofo e pensador moralista francês, Francois La Rochefoucauld, o Duque de La Rochefoucald (1613-1680), "O mal que fazemos não atrai contra nós tanta perseguição e tanto ódio como as nossas boas qualidades". Considerado um dos maiores escritores de máximas e epigramas da época, transformados em gêneros literários, Rochefoucald, era, contudo, pessimista em relação ao comportamento humano. Trezentos e quarenta anos após a sua morte, ele se chocaria com os comportamentos de muitos brasileiros, ideologizados politicamente.

Na semana passada, o Brasil foi surpreendido com uma gravação do renomado ator global, Paulo Beti, em que lamentava que a facada dada no presidente Jair Bolsonaro, antes das eleições de 2018, não tenha tido a eficácia necessária que lhe tirasse a vida. O ator diz, entre impropérios e carantonhas, que o imponderável foi o grande acaso que impediu a consumação do crime. "No meio da multidão, isso não estava previsto. Ninguém tinha previsto que ia aparecer um maluco a golpear a camisa amarela onde estava escrito 'Brasil acima de tudo' ali e cravar uma faca, ainda de maneira mais ou menos correta, mas não total. Desgraçado".

No desvario ideológico, protagonizado anteriormente por outros personagens, o editor de Opinião da Folha de São Paulo, o maior jornal impresso em circulação no Brasil, Hélio Schwartsman, declarou que torcia pela morte do presidente. No seu artigo, intitulado "Por que torço para que Bolsonaro morra", Schwartsman não escondeu, o seu fetiche macabro pelo presidente, e disse que seria bom para o país que o presidente morresse (na época o presidente contraiu o vírus Covid-19). "Torço para que o quadro se agrave e ele morra", disse. Deplorável e desprezível|

No meio das manifestações de "ódio do bem", como procuram justificar suas atitudes, uma obra do "artista" Marcello Tamaro, sócio proprietário da empresa Gorila Company, criou uma cabeça degolada do presidente Jair Bolsonaro. A "arte" mostra o presidente decapitado e sendo levado em um carrinho de mão. Depois surgem crianças jogando "pelada" com a cabeça de Jair Bolsonaro.

Numa linha análoga, a entre impropérios, delírios e alucinações ideológicas, a deputada federal Erika Kokai (PT-DF) culpou o presidente pelo calor que vem fazendo em várias cidades brasileiras. 
Dentre os significados de fetiche, está o de atribuir ao objeto do desejo, poderes sobrenaturais que resultam na idolatria. Na Psicanálise, o fetiche é considerado uma espécie de adoração a determinados objetos ou seres, com o intuito de estimulação própria. No caso da política, a simples existência do presidente Jair Bolsonaro, parece exercer uma espécie de poder sobrenatural que faz vir à tona, nos seus adversários, todos os desejos de ódios adormecidos, tornando essas pessoas moralmente desequilibradas e psicologicamente dependentes daquele que parece ter o poder de estimulá-las aos mais toscos desvarios psicológicos e sociais. Lamentável!

** Imagine como seriam as reações, se em vez da cabeça decapitada do Bolsonaro, fosse a representação artística de qualquer ativista da esquerda, Mariele Franco, Guilherme Boulos, ou mesmo Lula. Se em vez de um artigo da Folha de São Paulo, ou um vídeo de um ator global, fosse o de alguém desejando a morte de um deles. Tanto o STF, Comissão de Direitos Humanos, Anistia Internacional, ONU e OAB causariam uma hecatombe no Brasil. Mas como se trata da turma do ódio do bem, o assunto é visto apenas como liberdade de expressão, de imprensa e da democracia.

* Adilson Fonseca é jornalista e escreve neste espaço às quartas-feiras.

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