Pressão adia votação do PL Antifacção; Derrite recua e Hugo Motta defende poder da PF
Presidente da Câmara, Hugo Motta, reage à crise e diz ser ‘inegociável’ manter prerrogativas da Polícia Federal
Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados
A votação do chamado PL Antifacção, proposta que endurece o combate às organizações criminosas, estava prevista para esta terça-feira (11), mas foi adiada para a próxima quarta (12) após pressão da Polícia Federal (PF), do Ministério da Justiça e de parte da base governista. O relator, Guilherme Derrite (PL-SP), recuou e promoveu alterações no texto, criticado por reduzir as competências da PF em investigações de facções e milícias.
A reação mais dura veio do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), após integrantes do governo acusarem o Parlamento de tentar retirar atribuições da Polícia Federal. Um dia após elevar o tom contra o governo e defender a escolha de Derrite, Motta rebateu as críticas e afirmou que a autonomia da PF é “inegociável”, ressaltando que o Congresso não aceitará mudanças que enfraqueçam o papel da corporação no combate ao crime organizado.
Governo e oposição se unem para travar votação
A decisão de retirar o texto da pauta foi interpretada como uma vitória momentânea das alas que pediam mais tempo para discutir o projeto. Embora o governo defenda o fortalecimento das ações contra o crime organizado, vários ministros e parlamentares apontaram que o relatório de Derrite alterava de forma profunda e inesperada o projeto original enviado pelo Executivo.
O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ), confirmou que as articulações agora miram a votação na quarta-feira (12). Segundo ele, parte da base ainda resiste em aprovar o relatório como está e exige mudanças para evitar o esvaziamento de competências da PF e da Justiça Federal. A oposição também pediu que o texto retorne à Comissão de Segurança Pública para nova análise técnica.
Nos bastidores, auxiliares do Palácio do Planalto afirmam que o governo não se opõe a votar o PL, mas não aceita “alterações que fragilizem o sistema de investigação nacional”. Um dos articuladores resumiu o clima: “A pressa pode gerar um problema ainda maior: aprovar uma lei que enfraquece o combate às facções.”
PF vê risco de ‘retrocesso histórico’ e contesta mudanças
Na véspera da votação, a Polícia Federal divulgou uma nota pública contundente contra o relatório. De acordo com o órgão, as alterações de Derrite retiram competências da PF em investigações de grande alcance e transferem parte das atribuições para polícias civis estaduais — cenário considerado perigoso por permitir interferência política e aumentar riscos de vazamento de informações sigilosas.
A nota foi emitida mesmo após uma nova versão emitida por Derrite na noite de segunda (10). No entanto, a corporação ainda vê perda de autonomia, caso o projeto seja aprovado neste formato pelo Congresso.
Segundo a nota, a proposta obrigaria a PF a atuar apenas mediante pedido de governos estaduais, o que representaria um mecanismo de controle político sobre as investigações.
“As modificações estruturais comprometem o interesse público e representam um verdadeiro retrocesso no enfrentamento às organizações criminosas”, afirma o documento.
O texto ressalta que operações recentes contra facções não teriam ocorrido se as regras propostas já estivessem em vigor. Para delegados ouvidos pela reportagem, a mudança poderia “blindar grupos criminosos com influência política local”.
Horas depois, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou, nesta manhã de terça-feira (11), que a Casa não permitirá que a Polícia Federal perca suas atribuições, e que isso é uma condição “inegociável”.
“A Câmara não permitirá, em nenhum momento, que a PF perca suas prerrogativas. Essa é uma condição inegociável. Tanto é que o próprio relator, desde o dia ontem, por intermédio nosso, conversou com o diretor-geral da Polícia Federal”, disse o presidente da Casa.
De PL Antifacção a ‘PL das milícias’
A preocupação não se limita à disputa de atribuições. Parlamentares, integrantes do Ministério da Justiça e juristas afirmam que o novo texto abre brecha para que milícias e facções tenham maior capacidade de atuação em instâncias estaduais, dificultando investigações que hoje são conduzidas de forma integrada e nacional.
O relatório começou a ser tratado nos bastidores como “PL das milícias”, justamente por reduzir o protagonismo da Polícia Federal — instituição que lidera ações de combate ao crime organizado em grandes favelas do Rio de Janeiro e fronteiras internacionais. Para um integrante do governo ouvido sob reserva, “ceder investigações de facções às estruturas estaduais é um risco, porque há infiltração de milicianos dentro de forças locais”.
Como texto de Derrite diverge da proposta do governo
O governo queria apenas endurecer as penas e criar a categoria de organização criminosa qualificada, com pena máxima de 15 anos quando houver domínio territorial ou coerção armada.
Derrite foi além. O deputado incluiu condutas de facções e milícias dentro da Lei Antiterrorismo, permitindo enquadrar crimes comuns como ações terroristas — o que gerou preocupação diplomática no Itamaraty e questionamentos de constitucionalidade.
Além disso, o relatório:
- eleva penas de homicídio, roubo, sequestro e extorsão para até 40 anos;
- trata qualquer membro da organização com o mesmo peso penal, sem diferenciar níveis de participação;
- endurece punições mesmo para crimes sem violência, como furto.
Para técnicos do Ministério da Justiça, o texto mistura conceitos distintos e pode transformar a legislação antiterror em “um guarda-chuva de tudo”, com impactos diretos em acordos internacionais de segurança.
Principais pontos
Crime hediondo
- Derrite: inclui crimes equiparados a terrorismo como hediondos.
- Governo: inclui participação em facção e milícia no rol de hediondos.
Lei de Execução Penal
Os dois textos permitem monitoramento por vídeo e áudio de encontros dos presos com visitantes — exceto com advogados, salvo em casos de fundadas suspeitas de conluio.
Progressão de pena
Outro ponto em que Derrite endurece além do governo:
- Crimes hediondos: progressão só após 70% da pena (hoje é 40%).
- Hediondo com morte ou chefia de facção/milícia: sobe de 50% para 75%.
- Derrite inclui o feminicídio como agravante para cálculo da progressão.
- Reincidentes em hediondos: de 60% para 80%.
- Hediondo com morte para reincidentes: de 70% para 85%.
Punições adicionais
Derrite exige que chefes de organizações cumpram pena em Regime Disciplinar Diferenciado em unidades de segurança máxima — medida que não constava no texto do Executivo.
Ambos os textos autorizam o juiz a:
- decretar intervenção judicial e afastamento de sócios em empresas usadas por facções;
- determinar perdimento total de bens oriundos de atividade ilícita.
A diferença está na destinação dos bens:
- Derrite: bens ficam a cargo do governo estadual onde ocorreu o crime;
- Governo: bens são alienados pelo gestor de ativos do Ministério da Justiça.
As duas versões mantêm o prazo das investigações: 30 dias para réus presos e 90 dias para soltos, prorrogáveis.
Votação deve ser marcada por mais pressão
O adiamento não encerra o impasse, mas amplia o espaço para negociação. A base do governo admite votar o texto desde que as alterações feitas por Derrite sejam revistas. Já a oposição quer manter o relatório robusto, com penas mais altas e enquadramento nas regras antiterror.
Por enquanto, o clima na Câmara é de cautela. Deputados avaliam que qualquer erro no texto pode comprometer o combate ao crime organizado e gerar desgaste político para governo e Congresso.
A nova reunião de líderes está marcada para esta quarta-feira (12). Até lá, a ordem entre parlamentares é a mesma: negociar, revisar e tentar evitar que a pressa produza uma lei que aumente — e não reduza — o poder das facções.
Mais Lidas
Política
Flávio Bolsonaro afirma Tarcísio é o principal nome da direita
Últimas Notícias
Novas regras da CNH entram em vigor e reduzem custos para futuros motoristas
Mudanças flexibilizam aulas práticas, ampliam alternativas de formação e tornam o curso teórico totalmente online
Gilberto Gil anuncia show para mobilizar doações e salvar teatro em Salvador
Comunicado foi feito por meio de um vídeo publicado nas redes sociais do artista
Empresário morre em colisão entre moto aquática e barco na Ribeira
Acidente ocorreu à noite, deixou vítima ferida e mobilizou equipes da Marinha e do Samu para atendimento e investigação
Lideranças femininas discutem participação da mulher na política em evento com militantes do PT
Evento foi marcado por uma programação intensa, composta por mesas temáticas, atividades formativas e discussões voltadas ao enfrentamento dos desafios contemporâneos relacionados à igualdade de gênero
Presidente da Colômbia diz que corpos achados no mar podem ser de vítimas de bombardeio dos EUA
Gustavo Petro sugeriu que corpos achados foram resultado de ataques militares dos Estados Unidos
Brasil registra alta em feminicídio após assassinato de farmacêutica
Daniele Guedes foi morta a golpes de faca pelo ex-marido
Flávio Bolsonaro articula apoio de PL, PP e União Brasil em reunião desta segunda-feira em Brasília
Senador tenta consolidar nome para disputar a Presidência em 2026 e busca aval de lideranças partidárias nacionais
MC Cabelinho relata tentativa de assalto no Pelourinho durante visita a Salvador
Cantor mostrou ferimentos no pescoço após abordagem sofrida ao deixar show do Olodum no Centro Histórico
Marisa Monte anuncia novas datas da turnê ‘Phonica’ e confirma apresentação em Salvador
Show com orquestra acontece em março na Casa de Apostas Arena Fonte Nova
10 rooftops imperdíveis em Salvador com pôr do sol de tirar o fôlego e drinques inesquecíveis
De vistas para o mar a coberturas históricas, os rooftops de Salvador se tornaram o ponto de encontro para quem busca experiências completas