Bolsonaristas tentam esvaziar encontro entre Lula e Trump e usam elogio a Bolsonaro como munição política
Reunião entre os presidentes do Brasil e dos EUA abre disputa de narrativa; aliados de Jair Bolsonaro sugerem incômodo de Lula
Ricardo Stuckert/PR
O primeiro encontro presencial entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, realizado neste domingo (26) em Kuala Lumpur, na Malásia, provocou reação imediata em Brasília e em Washington. A reunião, que durou cerca de 50 minutos, discutiu tarifas comerciais impostas aos produtos brasileiros, sanções a autoridades brasileiras e questões ligadas à Venezuela, segundo informou o Itamaraty.
Integrantes da base governista classificaram a aproximação como avanço diplomático e um gesto de “respeito e soberania”. Ao mesmo tempo, o encontro virou combustível para a oposição. Aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) reagiram com cautela, ironia e desconfiança, tentando enquadrar a reunião como encenação e manter o capital político de Bolsonaro dentro da conversa entre Lula e Trump.
Eduardo Bolsonaro diz que Lula ficou incomodado
Um dos primeiros a se pronunciar foi o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em publicação no Instagram, Eduardo associou a reunião diretamente à presença simbólica do pai na mesa de negociação.
“Lula encontra Trump e na mesa um assunto que claramente incomoda o ex-presidiário: BOLSONARO. Imagine o que foi tratado a portas fechadas?”, escreveu o parlamentar.
A postagem acompanha o momento em que Donald Trump é questionado pela imprensa sobre Bolsonaro. Trump afirma que “sempre gostou” do ex-presidente brasileiro e que “se sente mal pelo que fizeram com ele”, antes de encerrar o tema, ao ser perguntado se falaria do assunto com Lula, dizendo: “não é da sua conta”.
Na avaliação do deputado, há um “laço de empatia” entre Trump e Bolsonaro que ultrapassa as fronteiras institucionais. Eduardo escreveu que a relação entre os dois líderes se sustenta na capacidade de “Donald Trump se colocar no lugar de Jair Bolsonaro e imaginar que, quando sair da presidência, Lula e sua equipe apoiarão a lawfare que certamente Trump sofrerá”.
‘Photo op’: Paulo Figueiredo minimiza resultado prático
A leitura de que o encontro foi mais imagem do que conteúdo também foi levantada por aliados do campo bolsonarista. O influenciador Paulo Figueiredo, neto do ex-presidente João Figueiredo e apontado como um dos principais articuladores de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, declarou à coluna de Igor Gadelha, no Metrópoles, que vê o episódio com reserva.
“Vamos aguardar o resultado prático. Mas, até agora, eu só vi um ‘photo op’”, disse Figueiredo, usando a expressão em inglês para descrever um movimento preparado essencialmente para gerar fotografia e narrativa pública.
Ao chamar o encontro de “photo op”, Figueiredo tenta enquadrar a reunião entre Lula (PT) e Trump como um gesto protocolar, pensado para consumo político interno dos dois países, e não como um reposicionamento concreto entre Brasil e Estados Unidos. A avaliação ecoa uma linha que já começa a circular entre parlamentares do PL: a de que Lula estaria buscando capitalizar politicamente uma aproximação com a Casa Branca sem, necessariamente, obter concessões objetivas em temas sensíveis como tarifas.
Base do governo celebra gesto e fala em soberania
Enquanto a oposição tenta reduzir o alcance do encontro, o governo e aliados no Congresso apresentam o episódio como um passo importante para recolocar o Brasil na mesa de negociação internacional. O senador Humberto Costa (PT-PE) afirmou nas redes sociais que houve “avanços imediatos na agenda comercial e na busca de soluções para as tarifas e sanções”. Para o parlamentar, “assim se faz política externa — com respeito, soberania e determinação”.
O ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência Márcio Macêdo exaltou a condução do presidente brasileiro. “Mais uma vez, o presidente Lula mostra sua capacidade de diálogo e liderança internacional. O encontro reafirma o compromisso do Brasil em buscar soluções justas para as tarifas e fortalecer uma relação de respeito e cooperação entre as duas nações.”
Parlamentares governistas também associaram a reunião à imagem de um Brasil que atua de forma autônoma. O discurso público enfatiza que o presidente brasileiro levou à mesa a defesa da soberania nacional, argumentando que decisões unilaterais que afetam a economia brasileira precisam ser revistas.
Esse tom também apareceu em manifestações de nomes da base, como Erika Hilton (PSOL-SP), Fabiano Contarato (PT-ES) e Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), que celebraram o fato de Lula (PT) sentar frente a frente com Donald Trump após uma fase de tensão diplomática.
Trump cita Bolsonaro e vira arma retórica da oposição
O trecho mais explorado por aliados do PL foi a fala de Donald Trump sobre Jair Bolsonaro (PL). Ao elogiar o ex-presidente brasileiro e dizer que “sempre gostou de Bolsonaro”, Trump ofereceu ao bolsonarismo uma peça imediata de comunicação.
A cena foi tratada como prova de que, mesmo diante de Lula, Trump ainda faz um gesto público de solidariedade a Bolsonaro. A oposição tenta transformar esse momento em evidência de que Trump não teria aderido ao discurso do governo brasileiro sobre as investigações e processos que atingem Bolsonaro.
Essa linha serve a dois propósitos para os aliados de Bolsonaro: manter o ex-presidente no centro da pauta internacional e tentar esvaziar qualquer leitura de que o encontro representaria um distanciamento entre Trump e o bolsonarismo.
Câmara fala em ‘diplomacia’ e ‘história’
Dentro do Congresso, também houve reação fora da polarização direta PT x PL. O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), elogiou publicamente o gesto de aproximação.
“Fico feliz em ver que o diálogo e a diplomacia voltam a ocupar o centro das relações entre Brasil e Estados Unidos. Quando líderes escolhem conversar, a História agradece”, declarou Hugo Motta. Segundo ele, a Câmara dos Deputados “continua à disposição de nossa diplomacia, votando assuntos importantes sobre o tema e comprometida em servir ao país”.
A manifestação coloca o episódio como um fato de Estado, e não apenas um ato de governo, e tenta posicionar o Legislativo brasileiro como ator disposto a colaborar caso avancem negociações comerciais resultantes da reunião.
O que está em jogo agora
Segundo o Itamaraty, após a conversa na Malásia, a expectativa é iniciar tratativas técnicas para reduzir barreiras tarifárias impostas unilateralmente pelos Estados Unidos e discutir sanções aplicadas a autoridades brasileiras. A diplomacia brasileira também menciona que houve espaço para tratar de Venezuela, ponto que a oposição já tenta usar para dizer que Lula estaria “intermediando” interesses regionais enquanto temas internos, como a situação jurídica de Jair Bolsonaro (PL), ficariam sem protagonismo.
Ao mesmo tempo, a postura pública de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e de figuras como Paulo Figueiredo antecipa o tom que deve pautar a direita: questionar ganhos concretos e associar qualquer desconforto na sala à figura de Bolsonaro, apresentada como obstáculo para Lula e ativo internacional para Trump.
Rayllanna Lima
Rayllanna Lima é jornalista e especialista em Marketing e Growth, movida pelo desejo de transformar dados em narrativas que informam, conectam e inspiram. Autora do livro Renascer, reúne experiências em veículos de comunicação, agências e empresas dos setores de energia e pesquisa de mercado, com foco em integrar pessoas, marcas e propósito.
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