O paradoxo de 2025: emprego recorde, inflação menor e pouco alívio no orçamento familiar
Com juros elevados e serviços pressionando, renda maior não se traduziu em consumo
Paulo Pinto/Agência Brasil
A desaceleração da inflação ao longo de 2025 trouxe algum fôlego para o orçamento das famílias baianas, mas não foi suficiente para eliminar a percepção de aperto no dia-a-dia. Mesmo com indicadores mais favoráveis do que nos anos imediatamente após a pandemia, fatores como juros elevados, pressão em serviços e nível ainda alto de endividamento seguiram limitando o poder de compra. O resultado foi um ano marcado por contrastes: inflação mais controlada, mercado de trabalho aquecido e crescimento econômico, mas com alívio desigual dentro de casa.
Esse movimento aparece de forma clara na leitura da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI). Na Carta de Conjuntura do terceiro trimestre de 2025, o órgão aponta que o Produto Interno Bruto (PIB) baiano avançou 2,2% na comparação anual e 0,4% em relação ao trimestre anterior, com crescimento acumulado de 2,7% no ano. O relatório destaca, porém, que o cenário de juros elevados, inflação acima da meta e alto endividamento limitou a confiança de consumidores e empresários, contribuindo para um crescimento mais moderado da atividade econômica.
Inflação recuou em 2025 e atingiu menor patamar pré-pandemia
De acordo com a pesquisa do Produto Interno Bruto dos Municípios 2022–2023, divulada no último dia 19 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2025 marcou um ponto de inflexão importante no comportamento dos preços. A inflação medida pelo IPCA acumulou 3,19% no ano até novembro, o menor resultado para esse período desde 2019.
Em entrevista ao Portal M!, a supervisora de Disseminação de Informações do IBGE na Bahia, Mariana Viveiros, explicou que o dado simboliza um período de maior controle inflacionário após anos de forte pressão. Apesar do resultado positivo no agregado, a técnica ressalta que o índice reúne centenas de produtos e serviços, com comportamentos distintos, o que afeta de forma desigual as famílias.
“A gente tem a menor inflação acumulada até novembro desde 2019. Depois vieram os primeiros anos da pandemia, com pressões inflacionárias muito importantes, e 2025 talvez seja o primeiro ano em que essa questão da inflação está mais controlada de uma forma geral”, afirmou.
Alimentos ajudaram no alívio, mas serviços continuaram pressionando
Um dos principais vetores da desaceleração inflacionária em 2025 foi a alimentação. O consultor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado da Bahia (Fecomércio-BA), Guilherme Dietze, explica que, após um pico no primeiro semestre, houve redução consistente dos preços, especialmente na Região Metropolitana de Salvador (RMS).
“Esse dado da inflação tem sido bastante positivo. Teve um pico maior no primeiro semestre e agora tem uma redução clara, chegando ali em torno de 4,5% na Região Metropolitana de Salvador. Tivemos vários meses com deflação, ou seja, queda de preços em alimentos”, disse ao Portal M!.
Esse movimento contribuiu para um ganho gradativo de poder de compra, sobretudo entre famílias de menor renda, para as quais alimentação tem peso elevado no orçamento. Por outro lado, outros grupos seguiram pressionando.
De acordo com Mariana Viveiros, despesas pessoais lideraram as altas no ano. “Dos grupos de produtos, o que mais aumenta neste ano são as despesas pessoais. Aí entram gastos com empregado doméstico, cabeleireiro, uma série de serviços que as pessoas têm”, explicou ao Portal M!.
Deflação em bens duráveis estimulou consumo específico
Outro efeito visível da inflação mais comportada foi a deflação em artigos de residência, que favoreceu o consumo de bens duráveis. Mariana Viveiros observa que esse movimento ajudou a impulsionar vendas no varejo. Embora esses bens não façam parte das despesas diárias, a queda média de preços criou espaço para compras represadas nos anos anteriores, especialmente entre famílias com renda mais estável.
“A gente tem os artigos de residência com uma deflação. Não é à toa que há um aumento importante nas vendas de móveis e eletrodomésticos”, disse a supervisora de Disseminação de Informações do IBGE na Bahia.
Mercado de trabalho recorde sustentou renda das famílias
Se a inflação não foi suficiente para explicar sozinha a dinâmica da economia doméstica em 2025, o mercado de trabalho aparece como o principal amortecedor do custo de vida. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), compilados pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), mostram que o Estado atingiu o maior número de pessoas ocupadas da série histórica, com cerca de 6,6 milhões de trabalhadores no terceiro trimestre.
Nesse mesmo período, a taxa de desocupação caiu para 8,5%, a menor já registrada na Bahia, ainda que permaneça entre as mais altas do país. O contingente de desempregados recuou para 605 mil pessoas, também o menor da série.
“A gente teve a menor taxa de desemprego de todos os tempos aqui no Estado, embora ainda seja uma taxa alta. E a gente tem o maior número de pessoas trabalhando e o menor número de pessoas desempregadas”, destacou Mariana Viveiros.
Juros altos limitaram crescimento e pesaram no orçamento
Apesar do quadro mais favorável no emprego, a política monetária restritiva seguiu como fator de contenção. Com a Selic em 15% ao ano, o crédito permaneceu caro ao longo de 2025, afetando tanto decisões de consumo quanto o endividamento das famílias.
Na prática, juros altos significam prestações mais caras, dificuldade de renegociação de dívidas e menor capacidade de absorver choques de preços, mesmo quando a inflação cede. De acordo com o consultor econômico da Fecomércio-BA, Guilherme Dietze, o nível elevado dos juros explica parte da desaceleração do crescimento econômico e do consumo.
“A tendência é que a gente cresça este ano em torno de 2,2%. No ano que vem, um pouco menos, algo em torno de 1,9%, por conta do nível elevado dos juros”.
O que esperar de 2026: inflação menor e crescimento mais contido
As projeções discutidas ao longo de 2025 apontam para um cenário mais benigno no próximo ano, especialmente no comportamento dos preços. Para o economista da Fecomércio-BA, não há, no momento, pressões estruturais relevantes sobre a inflação.
“A gente vê alimento sem grandes pressões. Vai ter a carne agora no fim do ano e início do ano que vem, mas é sazonal. Energia também não deve ter impacto tão significativo, com reservatórios adequados”, disse.
Guilherme Dietze avalia que, de forma geral, os preços tendem a permanecer equilibrados. “A gente vê os preços indo para algo entre 3,5% e 4% no próximo ano, o que é muito saudável”, completou.
Esse cenário converge com as expectativas de mercado divulgadas em 2025, que indicam inflação em desaceleração e eventual queda gradual dos juros, ainda que o crescimento econômico deva perder fôlego.
Entre alívio e cautela no orçamento doméstico
A leitura conjunta dos indicadores e das avaliações técnicas mostra que 2025 foi um ano de transição para a economia doméstica na Bahia. Houve melhora clara em relação aos anos de inflação elevada, com avanço do emprego e algum ganho de poder de compra, mas o custo de vida, o peso dos serviços e o crédito caro impediram um alívio pleno no orçamento das famílias.
Para 2026, a perspectiva é de inflação mais baixa e ambiente de preços mais estável, mas com crescimento moderado e necessidade de cautela. Para os lares baianos, o desafio segue sendo equilibrar renda, consumo e dívidas em um cenário que promete menos pressão inflacionária, mas ainda exige atenção às condições financeiras.
Rayllanna Lima
Rayllanna Lima é jornalista e especialista em Marketing e Growth, movida pelo desejo de transformar dados em narrativas que informam, conectam e inspiram. Autora do livro Renascer, reúne experiências em veículos de comunicação, agências e empresas dos setores de energia e pesquisa de mercado, com foco em integrar pessoas, marcas e propósito.
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