Trump classifica reunião com Lula como ‘muito boa’, mas diz que acordo entre Brasil e EUA ainda é incerto

Encontro na Malásia marca retomada do diálogo comercial; líderes discutem tarifas de 50% e sinalizam novas visitas oficiais


Redação
Estadão Conteúdo e Redação 27/10/2025 15:25 • Internacional
Trump classifica reunião com Lula como ‘muito boa’, mas diz que acordo entre Brasil e EUA ainda é incerto - Ricardo Stuckert/PR
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou, nesta segunda-feira (27), que a reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi “muito boa”, mas evitou garantir um acordo comercial imediato entre os dois países. O encontro, realizado neste último domingo (26) em Kuala Lumpur, na Malásia, marcou o início da retomada do diálogo bilateral entre Brasil e Estados Unidos após meses de tensão sobre as tarifas de 50% impostas a produtos brasileiros.

“Tivemos uma reunião muito boa, vamos ver o que acontece. Não sei se alguma coisa vai acontecer, mas veremos. Eles gostariam de fazer um acordo. E quero desejar feliz aniversário ao presidente, hoje é o aniversário dele. Ele é um cara muito vigoroso e impressionante”, declarou Trump a jornalistas durante voo para o Japão.

Lula prevê acordo em poucos dias

Apesar da incerteza no discurso de Trump, o presidente Lula afirmou, em coletiva no início dessa manhã, que a conversa com o presidente dos EUA foi “surpreendentemente boa” e demonstrou grande expectativa de que o acordo entre os países se concretize nos próximos dias.

“Se depender do Trump e de mim, haverá acordo. Quando duas pessoas querem negociar de verdade, tudo fica mais fácil. Nós dois queremos o mesmo: que Brasil e Estados Unidos voltem a ter uma relação de confiança e de benefício mútuo”, disse Lula.

Primeiro encontro formal entre líderes

A reunião foi o primeiro encontro oficial entre Lula e Trump desde que o republicano voltou à Casa Branca. De acordo com o Itamaraty, as conversas técnicas começaram já nesta segunda-feira (27) e devem continuar em Washington, na próxima semana, com uma cúpula de alto nível. Lula afirmou estar otimista e disse acreditar que o entendimento poderá ser alcançado nas próximas semanas.

“Acho que vamos fazer um bom acordo. Se depender de mim e de Trump, vai ter acordo”, declarou o presidente, acrescentando que pretende telefonar ao americano “sempre que achar necessário” durante o processo de negociação.

Reivindicações brasileiras e temas em debate

Segundo Lula, o Brasil apresentou uma lista de reivindicações que inclui o fim do tarifaço e a revogação de sanções impostas a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT). O presidente afirmou ter saído do encontro com a impressão de que “logo não haverá mais problema entre os dois países”.

Além do tema comercial, os líderes discutiram relações com a China, a crise na Venezuela e a situação política interna do Brasil. Fontes afirmam que Trump demonstrou empatia pela trajetória pessoal de Lula, especialmente pelo período em que o brasileiro esteve preso, e se disse impressionado com sua recuperação política.

Bolsonaro, Venezuela e equilíbrio internacional

Lula revelou que mencionou o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) durante a conversa. “Eu disse para ele que o julgamento foi muito sério, com provas muito contundentes”, contou o presidente, acrescentando que Trump “sabe que Bolsonaro faz parte do passado da política brasileira”.

Aliados de Bolsonaro avaliaram o encontro como uma derrota política, por consolidar Lula como interlocutor principal do Brasil com os EUA, papel antes exercido pela família Bolsonaro. Sobre o cenário internacional, o presidente brasileiro expressou preocupação com o agravamento da crise na Venezuela e se colocou à disposição como mediador entre Washington e Caracas.

“Queremos manter a América do Sul como zona de paz. Não queremos trazer os conflitos de outras regiões para o nosso continente”, declarou o petista.

Ao comentar a disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, Lula afirmou que o Brasil deseja manter uma política externa independente e equilibrada. “Nós não aceitamos uma nova Guerra Fria que durante 50 anos permeou a vida da humanidade entre Estados Unidos e Rússia”, afirmou, defendendo a diversificação das parcerias comerciais para evitar dependência de um único país.

Negociações e próximos passos

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou o encontro como o primeiro passo concreto de um novo ciclo de negociações. Segundo ele, o objetivo agora é “estabelecer um cronograma e definir os setores sobre os quais vamos conversar, para que possamos avançar”.

O chanceler afirmou ainda que o governo brasileiro pretende solicitar a suspensão temporária das tarifas enquanto durar o processo de negociação e disse esperar que, “em poucas semanas, seja concluída uma negociação bilateral que trate de cada um dos setores da atual tributação americana ao Brasil”. Vieira também confirmou que os dois presidentes acertaram visitas oficiais recíprocas, destacando que “Trump quer ir ao Brasil e Lula aceitou o convite para visitar os Estados Unidos”, sem, no entanto, anunciar datas.

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