Paulo Markun defende regulamentação da Inteligência Artificial em campanhas eleitorais
Jornalista alerta eleitores para uso mal-intencionado da tecnologia e pontua ‘desconfiança’ como uma das estratégias para evitar propagação de fake news
A Inteligência Artificial (IA) é uma ferramenta que, cada vez mais, ganha relevância no cotidiano das pessoas, seja na capacidade de gerar conteúdos automáticos ou no auxílio para alguma área de pesquisa. No ambiente político essa tecnologia não é diferente, visto que os candidatos podem usufruir desse instrumento para promover a sua campanha eleitoral e ainda, de forma sutil ou manipulativa, influenciar o comportamento dos eleitores.
Diante deste cenário, o Conversa On, bloco do Portal M!, entrevistou o jornalista, escritor e estudiosos da Inteligência Artificial, Paulo Markun, para elucidar a utilização dessa ferramenta durante as campanhas eleitorais, faltando 18 dias para as eleições municipais de 2024. Segundo ele, a IA deve passar por regulamentação, justamente para evitar o uso dessa tecnologia de forma mal-intencionada, algo que é recorrente no ambiente político.
“A quantidade de produção de fake news e de imagens absolutamente fantasiosas, como a do [Donald] Trump beijando Kamala Harris, com uma qualidade impressionante, que pode ser feita por qualquer pessoa, faz com que essa ferramenta muito relevante, que é a IA, seja realmente cada vez mais usada nas eleições, e possa influenciar os resultados eleitorais. A única reação possível da sociedade, e não é só no Brasil, é regulamentar isso. Aqui na Europa está, num certo sentido, mais avançado esse debate do que no Brasil, por exemplo”, afirmou.
Markun também citou a importância de não deixar que a IA entre na política sem que os candidatos tomem conta da situação, da mesma forma que acontece com os algoritmos das redes sociais. Segundo ele, todo o contexto tem relação com a Internet e com as novas tecnologias, que facilitam o acesso às informações e, consequentemente, na disseminação de notícias falsas.
Desconfiança no período eleitoral
Em relação à aprovação de restrições do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no uso de Inteligência Artificial e diante da incidência desta tecnologia nas campanhas políticas, o jornalista listou algumas estratégias para evitar a influência das fake news manipuladas por IA, conhecidas como deepfakes. Além disso, Paulo Markun destacou a “desconfiança” como um dos critérios a serem adotados pelo eleitor, para que não se deixem influenciar por qualquer produção.
“O primeiro deles é a desconfiança. Não acreditar em tudo que a gente vê, escuta, lê e ouve na internet. A segunda coisa é não disseminar informações que você recebe automaticamente sem ter o ‘desconfiômetro’ ligado. A terceira questão é mais complexa. Eu acho que é tentar examinar e entender quem é que está falando aquele assunto, quem está debatendo, quais são as proposições que tem esse ou aquele candidato, a que partido pertence”, enfatizou.
Ao ser questionado sobre as regras estipuladas pela Corte Eleitoral, o estudioso em IA afirmou ser uma medida “super importante” a ser implementada. Isso porque, a regulamentação do uso da Inteligência Artificial é necessária para “diminuir os seus riscos” e “aproveitar as suas reais potencialidades”.
Como a IA afeta a sociedade?
Apesar de defender a regulamentação da IA, Markun argumenta que essa ferramenta deve ser utilizada pela sociedade como uma maneira de explorar as suas potencialidades, mas ainda assim “não dá para deixar tudo solto”.
“Em primeiro lugar, eu acho que nós temos que sentar e utilizar os recursos da Inteligência Artificial e explorar suas potencialidades. Seja para literatura, seja para música, seja para a saúde, para o direito, para qualquer atividade. Número dois, as instituições têm que acompanhar, olhar e regulamentar esses usos e essas possibilidades, porque não dá para deixar tudo solto”, explicou.
Além disso, o escritor contou que, mesmo sem ser um “nativo tecnológico” por ter 72 anos, já conseguiu usar programas na linguagem Python para auxiliar em pesquisas e corrigir relatórios. Porém, segundo ele, essas transformações tecnológicas “vão afetar todas as nossas atividades que já estão afetando”. “Sem que a gente tenha noção de para onde as coisas estão caminhando, exatamente como funciona essa caixa preta”.
O jornalista exaltou o crescimento do uso da IA e disse, inclusive, que este pode ser mais exponencial do que o crescimento no uso dos computadores, pelo fato de se retroalimentar. Desse modo, Paulo Markun frisou que coisas boas e ruins podem surgir da Inteligência Artificial, mas a sociedade é quem deve “tomar o domínio” dessa tecnologia, e não o contrário como vem acontecendo, especialmente no processo eleitoral.
“Então, eu acho que não dá para saber até onde vai chegar a transformação. Ela vai trazer coisas ruins, com certeza, e poderá trazer coisas boas. Mas isso só vai acontecer se a gente, a sociedade, tomar o domínio disso e não deixar isso na mão só das empresas de tecnologia, para nós sermos apenas usuários da tecnologia passivos”, acrescentou o estudioso em IA.
Confira o Conversa On completo na íntegra:
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