Como jovens da Bahia estão reinventando o pagodão, o trap e o som da periferia
Novas vozes baianas seguem rotas diversas, mas compartilham o objetivo de ressignificar a produção musical do estado
Reprodução/Redes Sociais/ @malafaianavoz
A música baiana atravessa mais uma de suas encruzilhadas criativas, onde a história pulsa como base e a inovação empurra as fronteiras do chamado “som da Bahia”. No centro desse movimento está uma geração que cresceu entre o pagodão das comunidades, os estúdios caseiros, os tutoriais da internet e a influência global do trap, do R&B e das batidas africanas contemporâneas. Eles entendem que tradição não é barreira, mas ponto de partida.
É nessa mistura de referências, timbres e estéticas que novos artistas constroem seus universos musicais. Nesse contexto, surgem vozes de artistas que representam diferentes caminhos dessa nova safra, mas convergem na mesma missão: redefinir o que significa fazer música na Bahia.
A força criativa do trap soteropolitano
Desde a infância em Salvador, Markones transformou o ato de criar em propósito. Produtor, compositor, beatmaker, diretor de arte e rapper, ele encontrou no rap o espaço para aplicar tudo o que experimentou ao longo dos anos, misturando trap, música experimental, R&B, Afrobeats e referências baianas como pagodão e axé.
Sua trajetória se constrói na intersecção entre invenção, experimentação e a curiosidade artística que o acompanha desde sempre. Antes de se entender como músico, ele se viu criador — alguém que transforma referências diversas em linguagem própria, combinando desenho, escrita e música como partes de um mesmo impulso criativo. É dessa mistura que surge sua identidade musical.
“Eu sempre fui muito inventivo desde criança e sempre me interessei, na prática, por diversos tipos de expressões artísticas (mesmo que às vezes sem tanto conhecimento conceitual). Então via um desenho, passava a sonhar em criar o meu desenho. Lia um livro, começava a maquinar uma história foda para ser escrita e publicada no futuro. E claro, ouvia um rap? Queria fazer o meu também. Isso construiu muito da identidade artística que tento manter nas minhas músicas”, conta, em entrevista ao Portal M!.
“Sempre vem com um gostinho de alguns dos outros talentos que acabei desenvolvendo nessa trajetória sendo o Marcones (esse sem ‘k’ mesmo, como no RG). O momento-chave vem daí. Certa vez me desafiei a criar uma música num estilo diferente, o trap, depois de anos apenas escrevendo boombap. Mostrei a um amigo, ele empolgou e me desafiou a produzir de verdade. Fui fundo e não parei mais”.
Na visão do artista, o trabalho independente é um exercício contínuo de autonomia, mas também de limites impostos pela falta de recursos. Ele destaca que a liberdade criativa, embora real, convive diariamente com dificuldades para financiar projetos, o que impacta desde a produção até a forma de lançar e divulgar a própria música. Ainda assim, vê valor na possibilidade de decidir cada etapa, mesmo quando o orçamento interfere no resultado final.
“É muito legal ser a última e primeira voz sobre tudo – do beat até o lançamento e suas estratégias de divulgação, mas, ao mesmo tempo, a falta do ‘din’ deixa toda essa parte mais limitada e frustrante. Às vezes o seu som preferido vai sair apenas com uma capa, não porque você queria, mas porque às vezes é isso ou não lançar nada”.
Mistura e efervescência
Ao analisar o momento da música baiana, ele enxerga um período de efervescência, alimentado pela mistura entre ritmos tradicionais e influências contemporâneas. O intercâmbio entre pagodão, axé, arrocha, trap e música eletrônica, segundo ele, ampliou o alcance da cena e abriu espaço para que novos artistas surgissem com força nos últimos anos, fortalecendo a diversidade criativa do estado.
“A Bahia é muito rica em ritmos, poesia e cultura. Nossas narrativas são ótimas e isso enriquece muito nossa arte. Nos últimos anos, a cena tem ganhado uma nova cara e os ritmos têm se modernizado. O Axé Music, o Arrocha e o Pagodão — ritmos consolidados — têm flertado cada vez mais com elementos da música eletrônica, do rap/trap e de outros estilos. A gente está vivendo num caldeirão musical bom demais e a cada dia surge gente nova com muito talento. Acho que não lembro de termos tantos artistas — sejam já consolidados ou novos — em atividade ao mesmo tempo e com tanta relevância como nos últimos anos”.
Markones aponta que ainda há resistência a artistas que transitam por linguagens mais ligadas ao hip hop. Para ele, a aceitação de ritmos urbanos depende de um reconhecimento local que muitas vezes só chega após validação externa.
“Eu amo pagodão, amo arrocha, amo axé music… mas vejo uma cultura muito foda e forte aqui também no hip hop e movimentos de rua, mas, infelizmente, o público local engaja pouco quando os ritmos vão mais para esse lado. É incrível ver que, a cada ano, algum empresário de fora encontra algum artista aqui e nós exportamos esse artista. Acho que ainda falta o público baiano passar a perceber seus artistas do gênero, sem que precise que gente de fora valide para finalmente darmos o devido valor”, analisa.
Ao projetar o futuro, o artista enxerga a si mesmo como parte de uma construção mais plural, na qual criadores independentes possam desafiar modelos e ampliar o escopo da música baiana.
“O mercado musical é muito complicado e gosta de colocar regiões e artistas em caixas bem específicas. Não acho que caiba ao baiano uma caixa. Eu espero estar inserido, e também ter algum crédito nisso, em uma cena mais plural ainda no futuro”.
Nova geração do pagodão
Nascido na Fazenda Grande do Retiro, Silas Mateus – conhecido como Malafaia na Voz, cresceu em um território fértil de referências musicais, cultura de rua e energia comunitária que moldou seu olhar artístico. Aos 25 anos, o cantor, compositor e produtor acumula números expressivos que o consolidam como um dos principais nomes da nova geração do pagodão baiano.
Sobre o avanço dessa geração multifacetada que cria sem fronteiras, ele reforça que sua própria trajetória simboliza o alcance dessas novas conexões.
“Eu faço parte da nova geração, eu acho que tudo é música, música não tem fórmulas e a gente precisa acreditar que um dia vai chegar o dia. A música salva vidas – salvou a minha. Eu acho muito importante essas conexões… eu produzia dentro de um quartinho pequeno e hoje a minha música é escutada mundialmente falando, com milhões, isso é muito gratificante pra mim”, analisa, em entrevista ao Portal M!.
O artista destaca que manter esse fluxo de inovação depende também do diálogo direto com nomes que formaram a base do pagodão. Para ele, essa troca intergeracional é uma das engrenagens que impulsionam sua carreira e fortalecem sua visão de futuro.
“Tenho total propriedade para falar sobre isso, porque eu tenho como padrinho Igor Kannário, minha mais nova empresa é a Tempo Produções de Lu Costa, Alex Xella, Patrulha do Samba, Naldo Beny… e eu aprendo muito com eles, aprendo bastante. Além de outros amigos também que eu tenho, a gente tem muitas conexões, produtores musicais como o Rafinha RSQ – fiz feat com ele e Léo Santana… eu aprendo bastante como ser um profissional de verdade tanto pessoal quanto profissionalmente falando”.
Apesar de viver um momento de destaque nacional, Malafaia lembra que sua trajetória começou cedo, ainda criança, produzindo as próprias faixas, prática que moldou o artista que é hoje.
“Amadurecimento… eu tenho uma escola boa, sou nascido e criado escutando MPB… comecei no rap de rua, fui pro pagode naquela promessa de: eu preciso fazer com que a galera conheça o meu nome. E hoje, graças a Deus, a gente vê o nome ecoando. Eu amadureci bastante. É tipo um passado, presente e futuro”.
Mesmo com a consolidação de novos talentos, o cantor acredita que a cena ainda enfrenta barreiras culturais e estruturais. Para ele, no entanto, a música permanece como principal ferramenta de abertura de caminhos e derrubada de muros.
“Sempre há uma barreira, mas eu acho que a gente consegue quebrar ela com música. Música salva vidas, é o que eu sempre digo, não tem fórmulas, a gente tem que acreditar que um dia vai chegar o dia, tem que persistir, ainda que demore, um dia vai chegar o dia. É guerra até o fim, meu bordão é esse. A gente não pode parar, não pode desistir”.
Nesse contexto de expansão, Malafaia avalia que o pagodão vive uma fase fértil, mas ainda precisa superar um ponto-chave para ocupar o espaço que merece no país: trabalhar de forma mais coletiva.
“União. Juntos nós somos mais fortes, ninguém cresce sozinho… eu sou muito a favor da união, do trampo de rua, de feats, e isso não acontece como no funk, no sertanejo com funk, no trap com funk. Acho que falta mais isso da gente: abrir mais a mente. Juntos nós somos mais fortes”.
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