Ireuda Silva: ‘Mulheres negras enfrentam dupla jornada na luta contra o racismo e a misoginia’
Graduada em gestão pública, a vereadora está no segundo mandato e foi reeleita para mais quatro anos, com 9.719 votos no pleito de outubro
Divulgação
A série do Novembro Negro do Portal M! entrevistou a vereadora Ireuda Silva (Republicanos), que tem se destacado por sua atuação em defesa dos direitos das mulheres negras e pela promoção da justiça social. Na Câmara Municipal de Salvador (CMS), Ireuda é reconhecida por iniciativas que visam a inclusão e proteção das mulheres negras. Ao M!, a vereadora enfatizou que as mulheres negras enfrentam uma ‘dupla jornada’ na luta contra o racismo e a misoginia.
“Têm que lidar com discriminações que atingem tanto a cor de sua pele quanto o fato de serem mulheres. O feminismo negro se depara com desafios únicos, como o combate às representações estereotipadas, a invisibilidade social e a dificuldade de acesso a políticas públicas específicas. O principal desafio é construir uma agenda que avance em políticas de inclusão e reparação histórica para essas mulheres”.
Graduada em gestão pública, a vereadora está no segundo mandato e foi reeleita para mais quatro anos com 9.719 votos no pleito deste ano. Ela iniciou sua carreira no mundo empresarial, atuando como coordenadora da IURD TV durante 18 anos e criou o projeto Mulheres Notáveis, que se dedica a promover a autoestima e a autoafirmação da mulher.
Na Câmara Municipal, é presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e vice-presidente da Comissão de Reparação. Ireuda criou a campanha carnavalesca ‘Meu corpo não é sua fantasia’, que visa alertar para o assédio sexual e a violência contra a mulher. Idealizou o SIMM Mulher, o Prêmio Mulher Notável, o programa Nova Fase (que reserva vagas de estágio a filhas de mulheres vítimas de violência), a Patrulha Guardiã Maria da Penha da Guarda Municipal e coordena o Prêmio Maria Felipa, principal homenagem destinada a mulheres negras.
O que Ireuda Silva pensa?
– Mulheres negras tem ‘trabalho dobrado’ na luta contra o racismo e a misoginia. Quais são os maiores desafios da agenda do feminismo negro?
“As mulheres negras enfrentam uma ‘dupla jornada’ na luta contra o racismo e a misoginia, pois têm que lidar com discriminações que atingem tanto a cor de sua pele quanto o fato de serem mulheres. O feminismo negro se depara com desafios únicos, como o combate às representações estereotipadas, a invisibilidade social e a dificuldade de acesso a políticas públicas específicas. O principal desafio é construir uma agenda que avance em políticas de inclusão e reparação histórica para essas mulheres”.
– Como presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e vice-presidente da Comissão de Reparação da Câmara Municipal de Salvador, quais pautas têm prioridade nos dois colegiados?
“Como presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e vice-presidente da Comissão de Reparação da Câmara Municipal de Salvador, priorizo pautas que combatam a violência contra a mulher, em especial a mulher negra, e promovam a igualdade. Na área de reparação, damos atenção especial ao combate ao racismo estrutural e às políticas afirmativas. As duas comissões têm atuado para enfrentar desigualdades e assegurar direitos, especialmente no que diz respeito à proteção de mulheres e à justiça social. Temos a campanha ‘Meu corpo não é sua fantasia’, que todos os anos percorre os circuitos do carnaval alertando sobre a importunação e o assédio sexual, tanto na festa quanto no dia a dia. Para além da comissão, tivemos conquistas notáveis nos últimos anos. Por meio de projetos do meu mandato, hoje Salvador tem a Patrulha Guardiã Maria da Penha, um programa permanente na GCM para combater a violência doméstica. Temos o Simm Mulher, que desde 2020 já capacitou e encaminhou mais de 5 mil mulheres ao mercado de trabalho. Além disso, o governo federal está regulamentando a profissão de trancista, uma demanda da categoria que levamos ao ministro do Trabalho, no ano passado”.
– Conceitos relativamente recentes, como afroturismo, afroempreendedorismo e afrofuturismo, vieram para ficar. Como você avalia essa ocupação de espaços da população negra, agora como protagonista da própria história?
“Esses conceitos são fundamentais na ocupação de espaços e no resgate da identidade negra, permitindo que a população negra seja protagonista de sua própria história. Afroturismo e afroempreendedorismo valorizam nossa cultura e contribuem para a autonomia econômica, enquanto o afrofuturismo projeta um futuro de oportunidades e inovação para a juventude negra. Essa apropriação de espaço fortalece a autoestima e abre novas possibilidades para o desenvolvimento social”.
– Qual a sua visão sobre racismo estrutural e como ele se contrapõe à luta antirracista?
“O racismo estrutural é um sistema que impregna instituições e relações sociais, gerando desigualdades que são normalizadas e perpetuadas ao longo do tempo. A luta antirracista exige, portanto, uma desconstrução contínua, que passa por políticas públicas, educação, ações afirmativas e a sensibilização da sociedade. Somente com essa compreensão coletiva será possível erradicar o racismo das bases da sociedade”.
– Em quais áreas você considera que há avanços? E o que precisa ser feito de forma emergencial?
“Temos visto avanços em políticas afirmativas e na conscientização da sociedade, especialmente no ambiente educacional. Hoje a quantidade de pessoas negras nas universidades e no mercado de trabalho é muito maior. Mas é preciso ampliar muito ainda. A promoção de políticas de empregabilidade para a população negra e o fortalecimento do atendimento especializado em saúde mental são necessidades emergenciais”.
– A representação da população negra em ambientes de poder, como a política e o mundo empresarial, ainda deixa a desejar. Quais os caminhos para mudar este cenário?
“A presença de pessoas negras em espaços de poder é fundamental para alcançar a igualdade. Incentivar a participação política e empresarial, implementar políticas afirmativas e apoiar iniciativas de formação de lideranças são caminhos importantes. Além disso, é fundamental que partidos invistam mais em candidaturas negras, principalmente quando levantam tais bandeiras. E, claro, a sociedade precisa entender a importância de votar em negros e mulheres. São caminhos muito complexos, retroalimentados pelo racismo, mas que precisam de ações efetivas. É preciso sair do discurso e ir para a ação”.
– Recentemente, causou polêmica a suspensão, por decisão judicial, da posse de uma médica negra aprovada pelo sistema de cotas para uma vaga no corpo docente da UFBA, em favor da primeira colocada na ampla concorrência. Como avalia as ações afirmativas e o que pode ser feito para que decisões como esta não virem rotina?
“As ações afirmativas são conquistas fundamentais para reduzir desigualdades e garantir acesso a direitos historicamente negados à população negra. Casos como o da UFBA, em que uma médica negra teve sua posse suspensa, ressaltam a necessidade de proteção e aperfeiçoamento das políticas de cotas. Precisamos de mais mecanismos que garantam a efetividade das ações afirmativas e evitem interpretações judiciais que fragilizem essas conquistas. Se a lei existe, que seja seguida”.
– No contexto da sociedade racista, muito se fala nos malefícios à saúde mental e emocional, gerando o adoecimento da população negra. Como você lida com isso?
“O racismo afeta profundamente a saúde mental e emocional da população negra, gerando sofrimento e desgaste psicológico. Lido com isso priorizando o autocuidado, fortalecendo minha rede de apoio aprofundando o autoconhecimento. Sei que sou humana como qualquer outra pessoa, mas tento não me deixar abater, não me permitir ser derrotada pelo racismo”.
– Por fim, que mensagem você gostaria de deixar neste Novembro Negro?
“Neste Novembro Negro, minha mensagem é de luta e esperança. Que possamos seguir fortalecendo a consciência racial, lutando por equidade e honrando a história de nossos ancestrais. Nossa força está em nossa união, e cada conquista é um passo importante para um futuro mais igualitário e inclusivo”.
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