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Educadores pedem contribuição de famílias no combate ao bullying e cyberbullying nas escolas

Ao Portal M!, psicólogo falou sobre as consequências da prática para a saúde mental de crianças e adolescentes

Recentemente, um levantamento inédito do Colégio Notarial do Brasil – Seção Bahia (CNB-BA), mostrou que 2023 teve um recorde histórico de solicitação de ata notarial que inclui casos de bullying e cyberbullying em Cartórios de Notas, com 5.118 documentos feitos em todo o estado. O número indica uma preocupação crescente dos baianos em buscar documentar fatos do mundo virtual e utilizá-los como prova em tribunais. Por conta deste cenário, o Portal M! ouviu educadores para saber quais providências estão sendo adotadas para coibir a prática no ambiente escolar.

De acordo com a pedagoga e psicanalista, Fernanda Menezes, o bullying é uma realidade do ambiente escolar há muitas gerações, e a maioria das escolas tem trabalhado em prol da conscientização, inclusive promovendo palestras, levando profissionais da área de saúde mental e da educação, para que possam ser abordados ali quais são as causas e consequências dessa prática  na vida do indivíduo.

“E também para conscientizar jovens, crianças, adolescentes e até mesmo adultos. De conscientizar que o bullying é algo prejudicial, tanto para a saúde mental do outro como para si próprio, porque ele vai ter dificuldades do convívio de relações interpessoais. As escolas sempre trazem  profissionais para conversar com os alunos e preparar os professores. E acredito que não é o suficiente, porque se fosse, teríamos esgotado a questão do bullying dentro da escola”, afirmou.

No entanto, a especialista acredita que essa é uma demanda que não deve recair apenas sobre a escola, e defende que as famílias trabalhem esse tema em casa. Contudo, Fernada explica que muitas delas são responsáveis por “validar” o bullying, afirmando que se trata de uma “besteira”.

“Dizem que sempre foram vítimas de bullying, que hoje estão criando uma situação além do normal e a gente sabe que não é, a gente sabe que existem pessoas que têm sequelas de bullying que sofreram na escola e que hoje algumas superaram, outras não. Então, a gente não pode invalidar o que o bullying causa na vida de uma pessoa”, enfatizou.

Já se tratando do cyberbullying, a pedagoga acredita que essa necessidade de intervenção da família é ainda maior, sobretudo para monitorar o uso da internet. “A escola talvez tenha um pouco mais de dificuldade e eu vejo que a família precisa, mais do que nunca, estar envolvida. A maioria das crianças tem um aparelho celular na mão e, muitas vezes, os pais não monitoram essas redes sociais. Elas entram em plataformas onde têm contato com pessoas de diversos lugares do país e do mundo e isso pode ser um fator para potencializar essa prática”, pontua.

Já a coordenadora pedagógica Arielma Galvão acredita que assuntos como o bullying e o cyberbullying devem estar mais presentes na sala de aula. Ela defende ainda que o tema esteja no projeto político-pedagógico da escola. “Quando você garante que esse tema esteja no PPP da escola, você garante que ele faça parte de forma permanente da vida da escola, não só naquele ano, mas em todos os anos. Então, estar no PPP da escola já é uma providência”, ressaltou.

Outra inciativa importante é que as secretarias de Educação, bem como as instituições particulares, façam formação com as lideranças da escola para que haja apoio entre os próprios alunos e alunas. “Fazer uma formação sobre isso com eles, sobre o que é bullying, o que causa na vida das pessoas. E, através dos alunos e das alunas, a gente consegue fazer esse trabalho, porque, inclusive, eles alcançam o outro aluno, de uma forma que a gente não alcança, porque, além da questão da aprendizagem, eles trabalham no campo das relações interpessoais”, pontuou.

Ela aponta ainda, a necessidade de campanhas dos governos falando sobre a questão, inclusive a distribuição de cartilhas, mídia de TV, material didático e paradidático. “Uma campanha macro falando sobre isso. Com mídias feitas através de vocês da comunicação. Para que o aluno também, fora da escola, desse mundo letrado que a gente vive, ele tenha acesso a essas informações, a uma frase que seja contra o bullying, um comercial, uma imagem. Enfim, trabalhar de todas essas formas. Também trabalhar nos componentes curriculares da escola, através do professor. Com livros, com revistinhas, com material didático e paradidático”, sugere.

A pedagoga e coordenadora do Colégio Emmanuel Kant, localizado no IAPI, Lilia Gajzler, destacou que é importante levar temas como esse em sala de aula, para que seja promovida uma conscientização entre os alunos, despertando a necessidade do respeito ao próximo. Segundo a especialista, uma das iniciativas da escola que atua foi a criação de uma disciplina chamada “Laboratório de Inteligência de Vida”, para trabalhar as emoções e diferentes temas, a fim de contribuir com a evolução do indivíduo.

“Através dessa disciplina trazemos temas para os alunos e, através de palestras, promovemos essa interação no sentido de orientação. Temas esses que são considerados importantes e imprescindíveis para a formação do cidadão. Promovemos palestras, trabalhos em grupos, conversas informais a fim de orientá-los sobre esse tema, sinalizando sempre a questão da empatia e o respeito com o próximo. Não é uma tarefa fácil, mas persistimos e também contamos com apoio da família”, destacou.

O Portal M! buscou a Secretaria Municipal da Educação (Smed) para obter informações sobre as ações promovidas nas escolas da rede. Em nota, o órgão enfatizou que está desenvolvendo uma ação com a Coordenadoria de Educação Étnico Racial com o tema “O que é bullying e o que é racismo?”.

“As duas temáticas serão discutidas de maneira ampla para que toda a comunidade escolar esteja atenta com a finalidade de combater qualquer tipo de preconceito ou discriminação, priorizando o convívio saudável e comum entre os alunos”, diz a nota. A pasta, no entanto, não respondeu sobre os dados de episódios de bullying ou cyberbullying entre alunos da rede.

A reportagem também buscou a Secretaria de Educação do Estado da Bahia (SEC), para obter informações sobre as ações promovidas nas escolas da rede e para saber se são contabilizados os episódios envolvendo essas práticas entre alunos. No entanto, apesar das tentativas, não houve qualquer retorno até a publicação desta matéria.

Consequências para a saúde mental de crianças e adolescentes

Outro aspecto do problema são as consequências que podem ser ocasionadas à saúde mental de crianças e adolescentes. De acordo com o psicólogo e professor de Psicologia da UniRuy, Ezevaldo Aquino, as vítimas de cyberbullying são mais propensas a desenvolver depressão, ansiedade e baixa autoestima. Diante deste tipo de violência, também podem ter problemas como a má qualidade do sono e, em casos extremos, até mesmo ideações e/ou tentativas de suicídio.

“Imaginemos hipoteticamente uma pessoa adulta, que está em uma sala de aula e um colega começa a espalhar boatos sobre ela pela internet. Isso pode fazê-la se sentir triste, sozinha e desesperada. A pessoa pode começar a se preocupar o tempo todo e sentir medo de encontrar essa pessoa no espaço educacional. Tudo isso pode afetar a autoestima, impactar em pensamentos e crenças negativas sobre si, e como expliquei acima, até mesmo interferir na capacidade dessa pessoa de dormir bem à noite. Assim, entre crianças e adolescentes, os efeitos do cyberbullying são muito mais potencializados e devastadores”, relatou.

Um tese muito defendida é de que a responsabilização dos episódios de cyberbullying, quando realizado por crianças e adolescentes, deve recair sobre os pais. Perguntado se concorda com essa tese, o professor explicou que o comportamento pode estar relacionado a diferentes fatores, e por incluir, por exemplo, problemas familiares, questões de autoestima e influências negativas externas.

“Os pais precisam assumir a responsabilidade de monitorar, identificar e abordar esses comportamentos inadequados em seus filhos na internet, além de criar um ambiente familiar saudável em que se explorem temas relevantes como estes e suas consequências danosas, além de apoio mútuo. Os pais têm um papel importante na prevenção e tratamento do cyberbullying, educando seus filhos sobre o uso responsável da internet e monitorando suas atividades online. Eles também devem oferecer apoio emocional e buscar ajuda profissional para as vítimas”, alertou

Como proceder ao ser vítima de cyberbullying?

O advogado e professor da UniRuy, José Vinícius Silva de Santana, especialista de direito digital e proteção de dados pessoais, explica que em casos de pessoas que sofrem com esse tipo de prática, uma forma de provar ser vítima do cyberbullying é através do depoimento pessoal, da exibição de documentos, prova documental ou prova testemunhal. O especialista alerta ainda que a exibição de “prints” não tem sido considerada.

“É relevante comentar a produção de provas nesses casos, tendo em vista que decisões do Superior Tribunal de Justiça têm se desenvolvido no sentido de não considerar válida a prova obtida por meio de ‘print screen’. Diante dessa observação, já se pode afirmar que a confecção da Ata Notarial, destacada como tema central deste debate, é um meio de prova válido”, apontou.

Para a confecção da ata notarial, o advogado ressalta que a vítima desse tipo de crime ou alguém responsável, deve preservar as mensagens ou postagens no ambiente digital e dirigir-se a um cartório de notas. “No cartório, apresentando o equipamento que contém as mensagens ou o link das redes sociais onde a conduta criminosa foi praticada, deve solicitar que o tabelião realize a descrição do conteúdo. Essa ata poderá ser utilizada para narrar e comprovar, com força probatória, com presunção de veracidade, o conteúdo das mensagens ofensivas”, observou.

Outra alternativa, conforme José Vinícius, seria a utilização de plataformas ou sistemas que realizam a captura técnica de provas documentais digitais, como mensagens e postagens, assegurando a “cadeia de custódia” da prova.

“Isso inclui, entre outros elementos, a garantia de preservação de evidências digitais. Os relatórios produzidos por alguns desses sistemas já são aceitos em processos nas diversas instâncias do judiciário brasileiro. É importante mencionar também a busca por orientação de um advogado de confiança para a condução desses procedimentos, assegurando assim, a qualidade do meio probatório”.

Recentemente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou a Lei 14.811/2024 que incluiu os crimes de bullying e cyberbullying no Código Penal. Na avaliação do especialista, a medida foi tomada em face do aumento considerável dos casos. Para ele, a sanção da lei representa uma importante ação do poder público com o objetivo de coibir e reduzir a prática desses ataques.

“Entretanto, embora possa parecer utópico, não posso deixar de considerar a possibilidade de que apenas a criminalização dessas condutas não seja suficiente para conter o ímpeto daqueles que atacam sistematicamente outras pessoas. Como acontece com toda regulamentação voltada para combater comportamentos antissociais, percebe-se que ações coordenadas de prevenção e educação, envolvendo o Estado, a família, a sociedade e a comunidade são necessárias e tendem a ser mais eficazes na melhoria do convívio social”, alertou. 

 

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