Correios anunciam plano para conter prejuízos até 2026 e descartam privatização da estatal
Reestruturação prevê empréstimos bilionários, corte de custos, fechamento de agências e mudanças operacionais na empresa
Marcelo Camargo/Agência Brasil
O presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, apresentou, nesta segunda-feira (29), em Brasília, um amplo plano de reestruturação para tentar reverter a grave crise financeira enfrentada pela estatal. Segundo ele, a primeira fase tem como objetivo recuperar o caixa da companhia até março de 2026, evitando um cenário ainda mais crítico. De acordo com projeções internas, sem intervenção, o prejuízo poderia chegar a R$ 23 bilhões em 2026.
A apresentação foi feita em coletiva de imprensa e detalhou as medidas adotadas após a empresa acumular prejuízo superior a R$ 6 bilhões entre janeiro e setembro de 2025, além de déficits recorrentes desde 2022, que já ultrapassam R$ 10 bilhões. Rondon descartou mais uma vez a privatização da estatal e destacou que a correção de rota precisa ser rápida para impedir o agravamento da situação financeira.
Recuperação de caixa e empréstimo de R$ 12 bilhões
A primeira etapa da reestruturação é focada na recuperação imediata do caixa, com destaque para a captação de recursos junto ao sistema financeiro. Um dos principais instrumentos é o empréstimo de R$ 12 bilhões, contratado com cinco bancos: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Bradesco, que aportarão R$ 3 bilhões cada, além de Itaú e Santander, com R$ 1,5 bilhão cada.
Segundo os Correios, R$ 10 bilhões desse valor entram no caixa da empresa até esta quarta-feira (31), enquanto o restante será liberado em janeiro de 2026. O contrato, publicado no Diário Oficial da União (DOU), tem validade até 2040, conta com garantia da União e prevê carência de três anos, com início dos pagamentos mensais apenas em dezembro de 2029.
Rondon afirmou que o crédito permitirá manter a adimplência, recuperar a qualidade da operação e retomar a confiança do mercado. Ele não descartou a possibilidade de novas captações, já que o plano original previa até R$ 20 bilhões em empréstimos, mas parte foi descartada devido às taxas de juros consideradas elevadas.
Reorganização interna a partir de 2026
A segunda fase do plano, prevista para 2026 e 2027, será voltada à reorganização da estatal. Entre as medidas anunciadas estão a revisão do quadro de pessoal, parcerias estratégicas, redesenho das operações, gestão de ativos e melhoria da governança corporativa. Segundo Rondon, essa etapa deve gerar um impacto positivo estimado em R$ 7,4 bilhões.
Dentro desse pacote, os Correios preveem uma redução de R$ 2,1 bilhões nos custos com pessoal, principalmente por meio de um Programa de Demissão Voluntária (PDV). A expectativa é reduzir em até 15 mil o número de funcionários em dois anos, o equivalente a 18% da folha de pagamento. Atualmente, a folha responde por 62% das despesas totais da empresa, que possui 90% de custos fixos.
Também está previsto o fechamento de mil agências deficitárias, das cerca de 5 mil unidades existentes, além da venda de imóveis não operacionais, com potencial de arrecadação de R$ 1,5 bilhão.
Déficit estrutural e universalização do serviço
Durante a coletiva, Rondon destacou que os Correios enfrentam um déficit estrutural de mais de R$ 4 bilhões por ano, relacionado à obrigação legal de universalização do serviço postal, especialmente em regiões remotas e deficitárias. Segundo ele, o modelo tradicional entrou em crise a partir de 2016, quando as encomendas passaram a ter maior peso na receita do que as cartas, fenômeno observado também em outros países.
Essa mudança tornou o antigo sistema de financiamento insustentável, já que o monopólio das cartas em áreas rentáveis deixou de ser suficiente para bancar o atendimento em locais de baixo retorno econômico.
Sem privatização, mas com parcerias
Rondon reforçou que não há, neste momento, um plano de privatização dos Correios, mas confirmou a contratação de uma consultoria externa para avaliar possibilidades futuras, incluindo arranjos societários e parcerias estratégicas. Segundo ele, a empresa está aberta a modelos de sociedade de economia mista ou parcerias específicas, especialmente em áreas como negócios financeiros e seguridade.
Uma terceira fase do plano, voltada para crescimento e modernização, deve preparar a estatal para um novo modelo de negócio, com foco na sustentabilidade de médio e longo prazo.
Impactos do “Remessa Conforme” e novas receitas
Outro fator citado como determinante para a queda de receitas foi a implementação do programa “Remessa Conforme”, que passou a cobrar imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. A medida reduziu o volume de encomendas internacionais processadas pelos Correios e permitiu que outras empresas de transporte realizassem a distribuição no Brasil.
Até setembro de 2025, a receita da estatal caiu quase R$ 2 bilhões em comparação com o mesmo período de 2024. Ainda assim, a expectativa é alcançar R$ 21 bilhões em receita em 2027, acima dos R$ 18,9 bilhões registrados em 2024.
Postal Saúde sob revisão
O plano também prevê a revisão completa do Postal Saúde, plano de saúde dos funcionários, considerado oneroso para a empresa. Em 2024, a operadora destinou cerca de R$ 2 bilhões a procedimentos médicos e enfrenta risco à continuidade operacional, segundo suas próprias demonstrações financeiras. A situação se agravou após a devolução de R$ 221 milhões aos Correios, o que gerou perda de liquidez.
Rondon afirmou que o plano é benéfico aos empregados, mas precisa ser ajustado para não comprometer a saúde financeira da estatal, já que a Postal Saúde depende diretamente dos repasses dos Correios.
“Observando o atual cenário econômico do mantenedor [Correios], é salutar analisar em contextos gerais a possibilidade de os riscos não serem integralmente garantidos”, apontou a Postal Saúde em nota.
Com esse conjunto de medidas, a direção da empresa aposta na recuperação financeira em 2026 e no retorno ao lucro a partir de 2027, após 12 trimestres consecutivos de prejuízos.
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