Será que você convive com um psicopata?
Psicopatas não vivem apenas em filmes: estão nas empresas, nas ruas e até na política, manipulando em silêncio
Imagem gerada por IA
Quando se fala em psicopata, a imagem mais comum ainda é a do assassino em série dos filmes (Hannibal Lecter, Norman Bates). Personagens frios e cruéis moldaram o mito do psicopata homicida como, por exemplo, o Maníaco do Parque, e o Bandido da Luz Vermelha dentre outros tantos. A realidade, no entanto, é muito mais complexa, pois nem todo psicopata é um assassino em potencial. Muitos jamais cometem violência física, mas podem devastar a vida emocional, social e profissional de quem cruza seu caminho.
O que é psicopatia
A psicopatia é um transtorno de personalidade, ou seja, não é um surto passageiro, mas uma forma estruturada de existir. Na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) da Organização Mundial de Saúde (OMS), a psicopatia não aparece como diagnóstico isolado. O termo oficial é Transtorno de Personalidade Antissocial. Na prática clínica, adota-se essa nomenclatura, mas em criminologia e psiquiatria forense o termo psicopatia continua sendo utilizado.
O psiquiatra norte-americano Hervey Cleckley, em “The Mask of Sanity” (1941), mostrou como psicopatas podem parecer absolutamente normais: carismáticos, inteligentes, até sedutores. Mas essa “máscara de sanidade” encobre um vazio afetivo profundo.
Mais tarde, o psicólogo canadense Robert Hare desenvolveu a PCL-R (“Psychopathy Checklist – Revised”), que reúne 20 características distribuídas em quatro fatores:
- Interpessoal: charme superficial, mentira patológica, manipulação;
- Afetivo: ausência de remorso, emoções superficiais, falta de empatia;
- Estilo de Vida: impulsividade, irresponsabilidade, busca constante por estímulos;
- Antissocial: problemas de conduta desde cedo, reincidência, versatilidade criminal.
Esses traços aumentam a probabilidade de comportamentos nocivos, mas não condenam a pessoa a ser homicida.
Psicopatia, narcisismo e sociopatia
Muitos confundem psicopatia com narcisismo ou sociopatia, mas há diferenças:
- Narcisismo: o narcisista precisa de aplausos, de ser admirado. Vive para alimentar o ego.
- Psicopatia: o psicopata não precisa de plateia; precisa de poder. Quer controlar e usar pessoas como objetos.
- Sociopatia: nasce mais da influência de ambientes violentos ou negligentes. O sociopata é explosivo e desorganizado, enquanto o psicopata é frio e calculista.
Na prática clínica, percebo que muitas vítimas relatam conviver com pessoas que misturam traços narcisistas e psicopáticos. É como se a frieza de um se unisse à vaidade do outro, produzindo relações devastadoras.
Psicopatia não é psicose
Outro erro comum é confundir psicopatia com psicose.
- Psicose: envolve perda de contato com a realidade, delírios e alucinações. O indivíduo pode ser violento em surto, mas não manipula friamente.
- Psicopatia: não há delírio. O psicopata sabe exatamente o que faz. A crueldade é lúcida, racional, calculada.
O cérebro do psicopata
Estudos de neurociência revelam padrões distintos em cérebros de psicopatas:
- Amígdala: menor ativação, reduzindo medo e empatia.
- Córtex pré-frontal ventromedial: menos atividade, prejudicando julgamento moral e controle de impulsos.
- Conectividade reduzida: menos integração entre emoção e razão.
Essas diferenças, observadas em pesquisas de Adrian Raine (“The Anatomy of Violence”, 2013), não determinam destino, mas ajudam a explicar a frieza.
A Tríade Sombria
Em 2002, os psicólogos canadenses Delroy Paulhus e Kevin Williams (University of British Columbia) cunharam o termo Tríade Sombria para se referir a três traços de personalidade que compartilham frieza, manipulação e egocentrismo:
- Narcisismo: necessidade de admiração e grandiosidade.
- Maquiavelismo: manipulação calculada, estratégias frias para obter vantagem.
- Psicopatia: ausência de empatia e remorso, impulsividade e frieza emocional.
Pesquisas posteriores mostraram que esses traços estão presentes em maior grau em posições de poder, especialmente no mundo corporativo e na política.
Exemplos cotidianos de ações psicopáticas
Nem sempre é preciso olhar para um crime brutal para ver a psicopatia em ação. Ela também se revela em situações banais:
- Na fila: furar deliberadamente, sorrindo, como se fosse natural.
- No trânsito: colocar vidas em risco, sem sentir culpa.
- No trabalho: destruir colegas, roubar ideias, espalhar boatos.
- Na vida íntima: seduzir, explorar financeiramente e depois descartar sem remorso.
- Na política: manipular massas com promessas falsas, alimentar divisões e explorar a confiança alheia.
Esses exemplos são mais comuns do que se imagina e mostram que a psicopatia cotidiana é tão perigosa quanto a criminal.
Psicopatas funcionais: empresas e política
Nem todos os psicopatas estão em prisões. Muitos prosperam em cargos de liderança. Uma pesquisa da “Bond University” (Austrália), apresentada no congresso da “Australian Psychological Society”, mostrou que 21% dos executivos avaliados apresentavam traços psicopáticos clinicamente significativos, que é uma proporção semelhante à encontrada em presídios. O estudo, liderado por Nathan Brooks, contou com a colaboração de Katarina Fritzon e Simon Croom (“University of San Diego”).
A política também atrai personalidades da Tríade Sombria. Pesquisas como a de Rogoza et al. (2022) (publicada em “Personality and Individual Differences”) apontam que narcisismo e psicopatia estão associados à participação política. Outro estudo publicado no “European Journal of Political Research” mostrou que políticos com altos índices nesses traços intensificam a polarização, estimulando hostilidade entre eleitores.
Na minha opinião, esse é um dos maiores perigos atuais: o poder político servir como palco para psicopatas, narcisistas e maquiavélicos disfarçados de líderes.
Tem cura?
A psicopatia não tem cura.
- É estrutural, faz parte da personalidade.
- O psicopata raramente procura ajuda, pois não se vê como doente.
- Estando em psicoterapia, ele manipula e finge melhora.
O manejo existe, mas a transformação genuína não. Como disse Robert Hare, psicopatas podem imitar emoções, mas não senti-las.
Enfim
Nem todo psicopata é assassino em potencial. A psicopatia aumenta o risco de violência, mas o perigo maior está em sua capacidade de manipular, explorar e destruir silenciosamente, em casa, nas empresas e na política.
Para mim, o mais assustador não é o psicopata assassino dos filmes, mas o que você encontra na fila, no escritório ou no palanque político, pois eles minam lentamente a vida das pessoas.
“Ele vai te escolher, te desarmar com as suas palavras e te controlar com a sua presença. Vai se deleitar com a sua genialidade e os seus planos. E depois de acabar com você, vai te abandonar e levar com ele a sua inocência e o seu orgulho”, escreveu Robert Hare.
*Sergio Manzione é psicólogo clínico, administrador, podcaster, colunista sobre comportamento humano e psicologia no Portal Muita Informação!, e escreveu o livro “Viva Sem Ansiedade – oito caminhos para uma vida feliz”. Siga no Instagram @psicomanzione
**O conteúdo dos artigos é de responsabilidade dos autores, não correspondendo, necessariamente, à opinião do Portal M!
Sérgio Manzione
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