Calor urbano pode ser até duas vezes maior que o previsto com avanço do aquecimento global, aponta estudo

Pesquisa internacional revela que cidades aquecem mais rápido que áreas rurais e inclui municípios brasileiros nas projeções


Daniel Freitas
Daniel Freitas 09/02/2026 14:42 • Cidades
Calor urbano pode ser até duas vezes maior que o previsto com avanço do aquecimento global, aponta estudo - Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Um novo estudo científico publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) indica que o aquecimento global pode provocar aumentos de temperatura significativamente mais intensos dentro das cidades do que aqueles estimados por modelos climáticos tradicionais. A pesquisa analisou 104 cidades de porte médio em regiões tropicais e subtropicais e concluiu que, em cerca de 81% delas, o aquecimento urbano tende a ocorrer de forma mais acelerada do que nas áreas rurais ao redor, mesmo em cenários em que o aquecimento global seja limitado a 2 °C.

O trabalho chama atenção para o fato de que os impactos do aquecimento global não são distribuídos de maneira uniforme, variando de acordo com características locais como vegetação, grau de urbanização, regime de chuvas, umidade e clima regional. Em algumas cidades avaliadas, o aumento de temperatura urbana pode chegar a ser até o dobro do registrado no entorno rural.

Cidades aquecem mais rápido por efeito da ilha de calor urbana

O fenômeno que explica esse comportamento é conhecido como ilha de calor urbana. Áreas urbanas tendem a reter mais calor do que regiões rurais devido à presença predominante de concreto, asfalto e edificações, além da menor cobertura vegetal. Esses materiais absorvem grande quantidade de energia solar durante o dia e liberam o calor lentamente à noite, mantendo as temperaturas elevadas por mais tempo.

Esse processo contribui para o aumento da frequência de dias extremamente quentes e noites abafadas, o que pode gerar impactos diretos sobre a saúde da população, o consumo de energia elétrica e a qualidade de vida nas cidades.

Estudo combina modelos climáticos e aprendizado de máquina

Para chegar às conclusões, os pesquisadores utilizaram uma abordagem que combina projeções climáticas globais, modelos estatísticos e técnicas de aprendizado de máquina. O objetivo foi estimar de forma mais precisa como fatores locais — como chuvas, umidade do ar e cobertura vegetal — influenciam o aquecimento urbano.

Segundo os autores, os modelos climáticos globais são essenciais para prever tendências gerais do aquecimento do planeta, mas possuem limitações quando aplicados ao microclima urbano. Isso ocorre porque esses modelos trabalham com áreas geográficas muito extensas, nas quais as diferenças locais acabam diluídas.

Para superar essa limitação, o estudo incorporou dados de satélite e modelos capazes de estimar a temperatura da superfície com maior resolução, permitindo identificar variações específicas dentro das cidades.

Brasil apresenta comportamento distinto, mas ainda preocupante

Entre as cidades analisadas, o estudo inclui municípios da América Latina, com destaque para o Brasil. Um dos exemplos citados é Campo Grande, além de outras cidades brasileiras consideradas nas projeções.

Os resultados mostram que o comportamento das cidades brasileiras tende a diferir daquele observado em regiões mais áridas ou altamente urbanizadas da Ásia e do Oriente Médio. Em parte do território brasileiro, a diferença entre o aquecimento urbano e o regional é menor, em parte devido à maior presença de vegetação e disponibilidade de umidade, fatores que ajudam a reduzir a intensidade da ilha de calor urbana.

Ainda assim, o estudo ressalta que as cidades brasileiras continuam aquecendo junto com o clima regional, o que implica aumento na ocorrência de ondas de calor, noites quentes e desconforto térmico, mesmo quando a diferença entre cidade e entorno não é tão acentuada.

Pequenas variações podem gerar grandes impactos

Os pesquisadores destacam que o comportamento das cidades não é uniforme no mundo todo. Em alguns casos, a diferença entre o aquecimento urbano e o regional é pequena; em outros, o aumento é significativamente maior.

Mesmo assim, o estudo alerta que variações aparentemente pequenas — de apenas alguns décimos de grau — podem ter efeitos relevantes, especialmente em cidades que já apresentam temperaturas elevadas. Nessas localidades, aumentos adicionais podem elevar a incidência de problemas de saúde, estresse térmico, maior demanda por refrigeração e pressão sobre sistemas de energia.

Expansão urbana pode agravar ainda mais o cenário

Outro ponto importante destacado pelos autores é que o estudo não considerou a expansão futura das áreas urbanas. Caso as cidades continuem crescendo nas próximas décadas, com maior impermeabilização do solo e redução de áreas verdes, o aquecimento local pode ser ainda mais intenso do que o estimado.

Por que a meta de 1,5 °C é considerada fundamental

A meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais foi estabelecida em 2015, com o Acordo de Paris, após um amplo consenso científico e diplomático. Estudos indicaram que esse patamar representaria um limite relativamente seguro para evitar os impactos mais devastadores das mudanças climáticas, como secas extremas, colapso de ecossistemas, elevação acentuada do nível do mar e efeitos graves à saúde humana.

Relatórios do IPCC, o painel climático da ONU, mostraram que mesmo com 1,5 °C o planeta já enfrentaria perdas significativas, mas que os impactos seriam consideravelmente piores com 2 °C ou mais.

No entanto, dados recentes indicam que esse limite já pode estar sendo superado. Em 2024, a temperatura média global atingiu 1,6 °C acima dos níveis pré-industriais, levantando o debate sobre se o valor representa um novo padrão ou um pico isolado.

Além disso, estudos publicados nas revistas Nature Climate Change e Nature Communications sugerem que mesmo 1,5 °C pode não ser suficiente para evitar o colapso de geleiras na Groenlândia e na Antártida, regiões que armazenam gelo suficiente para elevar o nível do mar em até 65 metros ao longo dos próximos séculos.

Um relatório recente da ONU reforça o alerta ao indicar que, mesmo no cenário mais otimista, a probabilidade de limitar o aquecimento global a 1,5 °C é de apenas 14%, o que amplia a urgência de adaptação das cidades aos efeitos do calor extremo.

Daniel Freitas

Daniel Freitas

Formado em jornalismo pela Universidade Salvador (Unifacs), é apaixonado por esportes, com experiência em assessoria de imprensa. Chegou à equipe do Portal Muita Informação em 2024 com uma vontade imensa de aprender e agregar.

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